
O STF determinou a volta de Aécio Neves ao Senado e concedeu prisão domiciliar a Loures. As decisões do STF enfureceram a população.
Nossa República corrupta é regida pela lógica de Esparta, onde os adolescentes eram treinados para surrupiar a coisa alheia e da estratégia ainda fazia parte a privação de alimentação. O roubo exitoso nunca era punido; punição dura havia somente quando o roubo resultava frustrado (por incompetência, inabilidade ou pouca astúcia).
O senador Aécio Neves (presidente afastado do PSDB) foi gravado (março/17) pedindo R$ 2 milhões para Joesley (JBS), que confirmou tratar-se de propina.
Sua irmã negociou a entrega do dinheiro, seu primo o recebeu e uma terceira pessoa o escondeu. Os três foram presos, localizando-se quatro malas contendo R$ 500 mil cada uma.
Trata-se, como se vê, de um caso de roubo exitoso (corrupção bem tramada, depois naufragada por causa das excepcionais gravações). Pela lógica de Esparta, seguida pelo STF, esse ato não pode ser censurado (ou condenado).
A prisão de Aécio Neves foi pedida pelo Procurador-Geral da República, mas em seguida rejeitada (em virtude do privilégio da não flagrância). Seu afastamento do Senado (decretado por Fachin) foi revogado pelo ministro Marco Aurélio (que disse que um poder não pode interferir no outro).
Trata-se, ademais, diz a decisão do ministro, de um político com “fortes elos com o Brasil, que tem carreira política elogiável”.
Nas cleptocracias (governo dominado por ladrões), os larápios poderosos e exitosos são tratados de maneira desigual e privilegiada. Mesmo corruptos, são sempre elogiados e acobertados.
Mais: ele sempre discursou contra a corrupção (claro que cinicamente) e recebeu mais de 51 milhões de votos em 2014. É, portanto, uma grande liderança na República da corrupção, das máfias.
Mesmo afastado do Senado e do comando do PSDB, ficou na surdina tramando com seus comparsas seu retorno ao Parlamento e à política. Afinal, mostrou competência no momento do roubo.
Seguindo-se a lógica de Esparta (nunca o roubo exitoso é condenado), sua irmã e seu primo saíram da cadeia fechada. Gilmar Mendes, que nas horas vagas trabalha como seu auxiliar de recados a outros senadores, foi sorteado para relatar um dos novos inquéritos de corrupção contra Aécio Neves.
O Conselho de Ética do Senado rejeitou o pedido de sua cassação (por falta de provas, disse o senador João Alberto Souza – PMDB-MA -, que é figurinha carimbada em matéria de proteção corporativa).
Alexandre de Moraes foi sorteado para relatar outro inquérito (propina na construção da sede administrativa em MG). Vindo do PSDB, recebia ordens e bênçãos do seu protetor, Aécio Neves.
Nem Gilmar nem Alexandre dão sinais de que vão se declarar suspeitos. Consoante a lógica de Esparta, todo ladrão bem-sucedido no ato do roubo não merece punição.
Só resta agora ao PSDB indicar Aécio Neves para a eleição presidencial de 2018. Na República das Máfias tudo isso é possível. Resta saber se o eleitor vai concordar com esse descalabro ético ou se vai faxinar todos os corruptos.
Realmente é chocante a hipocrisia do jogo político e das instituições, que deveriam atuar com imparcialidade, em nosso país. Se fosse ficção seria tragicômico. Mas como é a realidade é no mínimo lamentável.